"embora soubesse que só o fato de escrever me ligaria como um fio de Ariadne a meus semelhantes, não poderia, no entanto, fazer com que nenhum de meus amigos me lessem, pois os livros que fui imaginando ao longo de meus dias de silêncio literário são bolhas de sabão de verdade e não se dirigem a ninguém, sequer ao mais íntimo de meus amigos, de modo que o mais sensato que podia fazer foi o que fiz: não escrevê-los."
"Desde que comecei estas notas sem texto ouço como ruído de fundo algo que escreveu Jaime Gil de Biedma sobre o não escrever. Sem dúvida, suas palavras trazem maior complexidade ao labiríntico tema do Não: "Talvez fosse necessário dizer algo mais sobre isso, sobre o não escrever. Muita gente me pergunta isso, eu me pergunto. E perguntar-me por que não escrevo inevitavelmente desemboca em outra inquisição muita mais inquietante: por que escrevi? Afinal de contas, o normal é ler. Minhas respostas favoritas são duas. Uma, que minha poesia consistiu - sem que eu soubesse - em uma tentativa de inventar uma identidade para mim; inventada, e assumida, já não tenho vontade de colocar-me inteiro em cada poema, que era o que me apaixonava quando os escrevia. Outra, que tudo foi um equívoco: eu pensava que queria ser poeta, mas no fundo queria ser poema. E em parte, na pior parte, eu consegui isso; como qualquer poema medianamente bem-feito, agora careço de liberdade interior, sou todo necessidade e sumissão interna a essa atormentado tirano, a esse Big Brother insone, onisciente e ubíquo: Eu. Metade Caliban, metade Narciso, temo-o sobretudo quando o escuto perguntar-me junto a uma sacada aberta: 'Que faz um rapaz de 1950 como você em um ano indiferente como este?' All the rest is silence".
Estava sentado no bar do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina ao lado de uma xepa de cigarro e um copo de plástico amassado. Tinha fone no ouvido para escapar de um barulho de canteiro de obras e um livro sobre mito e razão nas mãos. Dentro dessa bolha eu era um filósofo e estava acima de tudo. Tocava as idéias como se toca um orgão.
Aparece uma garota no meu campo de visão. Sorri e fala algo que obviamente não ouço. Por uma fração de segundo julguei que não fosse comigo. Tiro o fone e - ai de mim! - volto para o mundo. Ela fala que precisa de um voluntário para uma pesquisa e que só falta uma pessoa para fechar o grupo da vez. Pisco os olhos e... digo sim.
Subo com ela até um laboratório de psicologia. Pergunto do que se trata, ela fala que é uma pesquisa sobre psicologia visual. Peço mais detalhes e ela menciona de maneira reticente que faz parte de um laboratório de psicologia social.
Entro na sala e há um grupo a minha espera. Do outro lado vejo uma porta que dá para a sala do teste. Todos entram e se sentam numa extremidade da sala. Na outra parede, uma tela com projeção digital. Um bolsista explica que a sala está sendo filmada e o som captado. Ninguém se opõe. Ele explica como se dará o teste.
Começam as projeções. Fico aliviado. Vejo uma seqüência daquelas imagens ambíguas, que podem ser por exemplo tanto uma moça como uma velha. Cada participante diz o que via primeiro na imagem, e, vale dizer, alguns são meio tapados. Em seguida, algo mais abstrato. Algumas linhas dispostas paralelamente. Tínhamos que dizer quais eram do mesmo tamanho. Tive insegurança em algumas delas, segui o que a maioria falou. Na última fui teimoso e segui minha intuição.
Termina o teste e o bolsista fala que irá fazer uma entrevista a sós com cada um. Me escolheu como o primeiro. Assim que todos saem da sala ele me diz: você foi o único a ser testado aqui, isso foi uma pesquisa de psicologia social sobre influência do grupo sobre o indivíduo.
Nesse momento senti uma brisa. A brisa que surge quando calças são arriadas.
Assino um termo de compromisso e saio deslizando. Ao abrir a porta dou de cara com todos os que estavam comigo no teste e com a garota que me recrutou. Ela tinha o mesmo sorriso. Todos a mesma feição meio tapada. Percebi isso mesmo não tendo tirado os olhos do chão.
Tentei voltar para o meu livro de filosofia, para minha bolha, para minhas alturas. Não deu. Hoje, fui constrangido pela ciência.
Quando se trata de poesia confesso de peito aberto: Lucian teu nome é tapado. E nem adianta me vir com uma sugestão milagrosa debaixo do sovaco, pois por mais que já tenha tentado, poucos foram os poemas que li sem adquirir junto uma dor de cabeça fulminante. O que já consegui encarar foi no máximo um João Cabral ali, um Drummond acolá, ou algum Manuel Bandeira. Rimbaud, só em gotas.
Do pouco que (não) conseguir ler, pude notar duas grandes correntes contemporâneas, das quais tenho uma aversão de mesma intensidade. De um lado há os conservadores que vêem a poesia como a mais alta morada das questões de nossa raça. Para eles a poesia deve ser declamada em tom grandioso no passeio público de acordo com formas herdadas da Tradição. Do outro, o oposto, a poesia é o lugar de um subjetivismo radical, que, ao liquefazer as formas poéticas e sintáticas, tenta dar nova textura ao mundo e às palavras, a partir muitas vezes de uma irônica banalidade do cotidiano. Acham que ela deve ser declamada baixinho e para uma platéia só de poetas.
Por falta de opções escolho a música. Há uma cantora pop francesa que me agrada muito. É uma música fácil de se ouvir e remédio infalível para minhas dores de cabeças poéticas. Chama-se Berry (e pronuncia-se Berrí). Dentre suas músicas, há uma que venho ouvindo com obsessão: Les heures bleues. É uma melodia simples de acordes espalhados composta por cinco estrofes de três versos (ABB). O tema, um amor com leve tom de melancolia, me traz alguma paz no espírito.
Decidi procurar a letra para poder apreciá-la para além de algumas palavras que conseguia identificar e do sentido que os próprios sons e ritmos me traziam. Ei-la:
Tu crois aux marc de café, Aux présages, aux grands jeux, Moi je ne crois qu'en tes grands yeux.
Tu crois aux contes de fées, Aux jours néfastes et aux songes, Moi je ne crois qu'en tes mensonges. Tu crois en un vague dieu, En quelque saint spécial, En tel Ave contre tel mal.
Je ne crois qu'aux heures bleues, Et roses que tu m'épanches, Dans la volupté des nuits blanches.
Et si profonde est ma foi, Envers tout ce que je crois, Que je ne vis plus que pour toi.
Depois de ler a letra a música se tornou mais intensa. O tema do amor ganhou andamento e cores de uma precisão que me tiraram o fôlego. Os versos são uma declaração de amor de um eu que discorda de vários aspectos da visão de mundo de sua amante, mas que mesmo assim não deixa de amá-la devido a algo inexplicável que supera suas convicções céticas e superiores, o desmontando por completo. A condição que o texto traz nos revela uma matéria invisível que preenche o espaço entre a diferença dos dois e que com certeza esta fora do mundo das razões.
A estrutura das duas primeiras estrofes colocam nos dois primeiros versos esses aspectos negativos da amante, e no terceiro o contraponto que supera essas discordâncias. Já nas três últimas estrofes há um enlace que comenta, sintetiza e fecha essa tensão. As características da amante são colocadas em um crescendo de importância moral, bem como a força do motivo irracional que supera a divergência, sempre usando a estrutura "Se... senão que...". Primeiro há afirmação de que ela crê em borras de café, presságios e grandes jogos, a resposta é que ele crê senão que nos seus grandes olhos. Depois, que ela crê em contos de fadas, dias nefastos e sonhos, ele responde que crê senão que nas suas mentiras. Por último que ela crê em um deus vago, em qualquer santo especial, um tal Ave contra um tal mal e ele responde que crê apenas nos gestos que ela lhe faz (os momentos nas horas azuis*, as flores, etc) e que apesar das contradições, ele vive apenas por ela.
Ou seja, mesmo sendo simples, a estrutura lógica "Se... senão que..." é o centro e a força da letra, já que é a forma que evidencia ironicamente a irresolução entre paixão e razão. Pois essa letra encarna nada menos do que uma tentativa de explicação lógica do eu diante de uma total perplexidade (seu amor por ela). Mas a análise que ele consegue realizar se torna a menos lógica possível, suplantando seu racionalismo e a transformando sua explicação em elogio.
Fiquei muito feliz com o rendimento que essa canção me trouxe. Mas ao procurar mais informações sobre a letra, pasmem, tomo uma apunhalada nas costas: é um poema! Les heures bleues é nada mais do que o poema XX do livro Chansons pour elle (1891) de Paul Verlaine.
Muito provavelmente se tivesse lido o poema sem nunca ter ouvido a música, Les heures bleues teria me passado batido, talvez até dado uma dorzinha de cabeça. Mas Berry e sua banda conseguiram realizar um trabalho pedagógico através de sua melodia simples. Consegui ver um pequeno mundo, uma poesia menos da linguagem mais do jogo psicológico, que me trouxe um prazer contemplativo sobre uma condição sem dúvida familiar: a de que há algo de muito deslocado e de muito irresistível na paixão. É uma irresolução que sempre vai nos acompanhar e que não há como viver sem ela.
Você pode ouvi-la aqui nos 3 primeiros minutos da faixa:
* A 'hora azul' é uma das maneiras (com conotação de inocência) na qual Paris era conhecida antes da primeira guerra; mas é também um período entre a madrugada e a manhã em que o céu ganha um azul característico e que guarda a crença de ser o momento em que se dá o silêncio absoluto no mundo. Ele pode ser visto num dos episódios do filme As aventuras de Reinette e Mirabelle (1987), de Eric Rohmer.
Passou Cidade de Deus nessa semana na Globo. É interessante rever o filme agora, depois que a poeira baixou de vez. Para ser sincero não acho o filme ruim, ou ao menos não o crucifico com os pontos negativos de outrora (injusto socialmente, publicitóide-traidor-da-causa, etc), exigências extremas para um filme que parecia ser todo o cinema brasileiro concentrado em duas horas. Contudo, atualmente o que mais me saltou aos olhos foi uma espécie de pose apressada, um virtuosismo publicitário na cor, nos planos, no roteiro cheio de voltas e explicações esquemáticas. Tudo é tão-tão que não dá tempo para sentir, entender, gostar. Mas há também pontos bastante positivos, ainda mais se compararmos ao novo cristo do cinema brasileiro, Tropa de Elite: Cidade de Deus é bastante liberal em seus valores. A maconha é usada por todos (e não só por esses-estudantes-universitários-vagabundos-que-financiam-o-tráfico), além de haver diversas referências sexuais explícitas e engraçadas (a 'dica' sobre a banana, por exemplo). Enfim, Cidade de Deus não é nem o céu, nem o inferno do cinema brasileiro. Anos depois, parece ter encontrado seu lugar.
(um rápido adendo: é incrível como qualquer filme deixa de ser cinema e passa a ser produto audiovisualgenérico na televisão).